outras notícias
-
-
[Quase] Em directo . Entrega do Prémio Pritzker 2011 . Washington, 2 de Junho
08.06.2011
Os vídeos e os discursos de Barack Obama e Eduardo Souto de Moura

Discurso do Presidente dos EUA, Barack Obama

Em meu nome e da Michelle, quero começar por felicitar o vencedor desta noite, Eduardo Souto de Moura. E quero igualmente agradecer aos membros do júri que creio terem tido uma tarefa difícil na escolha entre tantos arquitectos notáveis de todo o mundo.

O meu interesse pela arquitectura vem de há muito. Houve mesmo um tempo em que acreditei poder vir a ser arquitecto, em que tive a expectativa de ser mais criativo do que me era possível. Por isso, em vez de ser arquitecto, acabei por ter que seguir a carreira política.

Quando amamos a arquitectura, poucos são os lugares tão bons para viver quanto a minha cidade de Chicago, tal como os Pritzkers e tantos outros podem testemunhar. É o local de nascimento do arranha-céus, uma cidade repleta de edifícios e espaços públicos desenhados por arquitectos como Louis Sulllivan, Frank Lloyd Wright ou Frank Gehry (que está aqui esta noite). Aliás, a sede da nossa última campanha eleitoral situava-se num edifício desenhado por Mies van der Rohe. E durante dois anos, superlotámo-lo com centenas de pessoas a trabalhar sob pressão e a sobreviver à custa de pizza. Não estou certo de que era isso que Mies tinha em mente, mas resultou muito bem para nós. E é nisto que consiste a Arquitectura. Criar edifícios e espaços que nos inspiram, que ajudam a fazer o nosso trabalho, que nos aproximam e que, no seu melhor, resultam em obras de arte que podemos percorrer e onde podemos viver. E, no fim de contas, é por isso que a Arquitectura pode ser considerada como a mais democrática das formas de arte.

Talvez seja essa a razão porque Thomas Jefferson, que ajudou a consagrar os princípios fundadores da nossa nação, tenha tido tão grande paixão pela arquitectura e pelo desenho. Passou mais de 50 anos a aperfeiçoar a sua casa de Monticello. E despendeu horas infindáveis a esquissar e a rever os seus desenhos para a Universidade de Virginia, com a esperança de que nesse lugar as gerações vindouras pudessem estudar e tornar-se, tal como ele próprio descreveu, "no futuro baluarte da mente humana neste hemisfério".

Tal como Jefferson, o homenageado desta noite passou a sua vida profissional não apenas a potenciar as fronteiras da sua arte, mas a fazê-lo por forma a servir o bem comum. Eduardo Souto de Moura desenhou casas, centros comerciais, galerias de arte, escolas e estações de metropolitano, todas num estilo que parece tão simples quanto belo. É perito no uso de diferentes materiais e cores, e as suas formas simples e linhas precisas inscrevem-se suavemente nas suas envolventes. Talvez a mais famosa obra de Eduardo seja o Estádio que desenhou para Braga, em Portugal. Sem nunca contentar-se com a resposta fácil, Eduardo queria construir este particular estádio num dos lados de um monte. Assim, fez explodir quase um milhão e trezentos mil metros cúbicos de granito da encosta e triturou-os por forma a fazer o betão necessário para construir o estádio. Teve também o grande cuidado em posicionar o estádio de tal forma que quem não pudesse comprar um bilhete pudesse assistir ao jogo a partir das encostas circundantes. Quase como uma versão portuguesa do Wrigley Field.

Esta combinação entre forma e função, entre talento e disponibilidade, é a razão pela qual hoje homenageamos Eduardo com aquele que é conhecido como o “Prémio Nobel da Arquitectura”. Tal como afirmou Frank Gehry, já premiado com o Pritzker, “a Arquitectura deve falar do seu tempo e lugar, mas ambicionando a intemporalidade”. Quero agradecer a todos os homens e mulheres que criam estas obras de arte intemporais – não apenas pela alegria que nos entregam, mas por ajudarem a fazer do mundo um lugar melhor.

E, Tom (Pritzker), mais uma vez obrigado pelo vosso extraordinário apoio à arquitectura. Faz a enorme diferença. Muito obrigado.


Discurso de Eduardo Souto de Moura

Só quando recebi o convite dizendo "Eduardo Souto de Moura of Portugal” é que acreditei que tinha ganho o Pritzker 2011. Não posso esconder que fiquei feliz, por mim, pela minha família, colaboradores, amigos e clientes. Em nome de todos, os meus sinceros agradecimentos.

Aprendi a desenhar na Escola Italiana do Porto, cidade onde nasci, e no liceu decidi ser arquitecto. Não é que tivesse alguma paixão especial pela disciplina, mas na crise agnóstica dos 15 anos, duvidei se Deus devia ter descansado ao 7.º dia. É que, pensando bem, ficou por fazer uma geografia como a de Delfos, a Acrópole para receber o Partenon ou secar um pântano no Illinois, onde a Farnsworth pudesse ficar.

Em 1975 depois da Revolução dos Cravos, comecei a trabalhar com o Arqº Siza Vieira. Não só pela arquitectura, mas sobretudo pela pessoa em si, foi uma experiência excepcional que ainda hoje continuo a fazer com o mesmo prazer. Saí do seu escritório nos anos 80, para ser arquitecto. Foi difícil começar, mas usar a sua “linguagem” parecia-me uma traição e mesmo que o quisesse, não o conseguia fazer, por pudor.

Depois da Revolução, e restabelecida a Democracia, abriu-se a oportunidade de redesenhar um país, onde faltavam escolas, hospitais, outros equipamentos, e sobretudo meio milhão de casas. Não era certamente o Pós-Modernismo, na altura em voga, que nos poderia resolver a questão. Construir meio milhão de casas, com frontões e colunas seria uma perda de energia, pois a ditadura já o tinha ensaiado. O Pós-Modernismo chegou a Portugal, sem quase termos passado pelo Movimento Moderno. É essa a ironia do nosso destino: “antes de o ser já o éramos”.

Do que precisávamos era de uma linguagem clara, simples e pragmática para reconstruir um país, uma cultura, e ninguém melhor que o proibido Movimento Moderno poderia responder a esse desafio. Não era só um problema ideológico, mas sobretudo de coerência entre material, sistema construtivo e linguagem. Se “arquitectura é a vontade de uma época traduzida num espaço”, Mies van der Rohe abriu-nos as portas na redefinição da disciplina tão massacrada até aí, pela linguística, semiótica, sociologia e outras ciências afins. O importante é que a arquitectura fosse “construção”, assim com urgência, nos pedia o País.

Com 10 séculos de História, Portugal encontra-se hoje numa grande crise social e económica, como já aconteceu em vários períodos anteriores. Hoje, como ontem, a solução para a arquitectura portuguesa é emigrar. Como dizia Paul Claudel: “Le Portugal est un pays en voyage, de temps en temps il touche l’Europe”. Resta-nos a “mudança”, como quer dizer a palavra “crise” em grego. Resta-nos decifrar o significado dos dois caracteres chineses que compõem a palavra “crise”: o primeiro significa “perigo”, o segundo “oportunidade”. Em África e noutras economias emergentes não nos faltarão oportunidades, o futuro é já aí. “Trabalhar na transmutação, na transformação, na metamorfose é obra própria nossa” (1).
Muito obrigado.

(1) Herberto Helder, “O Corpo. O Luxo, A Obra”

Subscrever E-Newsletter



 

BA

JA

mais

 

Encontre um Arquitecto
OA
OASRN OASRS HABITAR PORTUGAL IAP20 OAPIX CONHECER 1(-)1 13 CONGRESSO DOS ARQUITECTOS PORTAL DOS ARQUITECTOS
CAE CIALP DoCoMoMo FEPA UIA