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Pedro Vieira de Almeida. 1933-2011
13.09.2011
O arquitecto Pedro Vieira de Almeida morreu ontem, na sua casa do Porto, vítima de doença súbita.

O velório decorrerá na zona de não crentes da Basílica da Estrela, em Lisboa, a partir das 16h de dia 14 de Setembro. Às 22h, o grupo "Músicos do Tejo" tocará algumas da música que Pedro Vieira de Almeida gostava.
O funeral segue às 10h de dia 15 de Setembro para o Cemitério de Benfica.

A Professora Arquitecta Ana Tostões enviou o texto que se publica na íntegra.

Pedro Vieira de ALMEIDA, a exigência do arquitecto, do polemista e do crítico
( Lisboa 1933- Porto 2011)

Arquitecto, exerceu a sua actividade em Portugal, Cabo Verde e Moçambique. Filho do professor e filósofo Francisco Vieira de Almeida, formou-se na Escola Superior de Belas Artes do Porto (1964) numa época de resistência em que o empenho cívico o conduziu à prisão política. Para além da prática na área da arquitectura e do planeamento, desenvolveu uma actividade ímpar como teórico, crítico e historiador da arquitectura. O seu espírito inquieto, a lucidez das suas reflexões, o carácter abrangente do seu pensamento, a exigente profundidade do seu trabalho, o magistério polemista e a crítica permanente que corajosamente quis instaurar, contribuem para a definição de uma atitude sem precedentes no ofício de arquitecto, onde prática e teoria se articulam no quadro de uma obra global. Se na prática disciplinar as suas obras contribuem com posturas inovadoras assentes na instauração de metodologias suportadas por rigorosa análise crítica, a construção teórica que desenvolveu reflectiu essa permanente reflexão.

As suas primeiras reflexões no âmbito da teoria da arquitectura e da fenomenologia do espaço, pioneiras também no quadro internacional da cultura arquitectónica, confirmam-se no trabalho de grande fôlego fixado na Tese para obtenção do diploma de arquitecto: Ensaio sobre o Espaço da Arquitectura (1962-64). Inaugurando o que podemos designar por geração fundadora da crítica, Pedro Vieira de Almeida tende a fazer evoluir a sua obra no sentido de um crescente empenhamento na área da história da arquitectura, articulando a teoria do espaço com o valor do tempo e a noção de passado, analisando os aspectos da produção arquitectónica num sistema interpretativo global.

No final dos anos 50 integrou o atelier de Nuno Teotónio Pereira e Nuno Portas, onde se manteve ao longo dos anos 60, tendo colaborado em diversos projectos: Igreja do Sagrado Coração de Jesus (1962), casa de Vila Viçosa (1959), Mosteiro de Sassoeiros. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian para o “Estudo das relações entre o espaço da arquitectura e o comportamento”, em Inglaterra, e organizou na Sociedade Nacional de Belas Artes um curso de iniciação à arquitectura. São desse tempo as reflexões sobre o “Espaço Perdido” (Jornal Letras e Artes, 1965) ou as primeiras análises da obra de Siza Vieira ([ı]Arquitectura; Hogar e Arquitectura, Madrid 1967). O final da década de 60 será marcado por uma viva polémica que viria a abalar o consenso e a unanimidade da classe dos arquitectos: a exposição sobre a vida e a obra de Raul Lino, o primeiro estudo monográfico sobre um arquitecto realizado em Portugal. Pedro Vieira de Almeida propõe um outro olhar sobre a obra de Raul Lino, exaltando a modernidade contida no agenciamento do espaço e a organicidade patente na valorização do sítio, na sensibilidade à paisagem: “tentando entender o que era passível de ser analisado e enquadrado naquilo que poderia ligar a um certo sentido crítico de modernidade” (1979).

Paralelamente, já estabelecido por conta própria e assumido defensor do pequeno atelier, ganha em 1970 o Concurso da Igreja dos Olivais (concluída em 1979) e dois anos mais tarde obtém igualmente o primeiro lugar no Concurso Internacional para a Urbanização de Vilamoura. Também em 1972 inicia o Plano Morfológico da Avenida da Liberdade que mais uma vez seria tema de investigação, aliando ao conhecimento da cidade e à história urbana a génese do desenho, defendendo os valores de unidade-significado da Avenida enquanto eixo estruturador da cidade e valorizando não só os edifícios mas também os ambientes urbanos (Arquitectura n.º 139, 1980).

Corolário das teorias desenvolvidas, o plano de Telheiras-EPUL (1973-1974) ficará como a materialização da conjugação crítica do urbanismo moderno com a cidade tradicional (Arquitectura, nº 137, 1980).

Durante o período revolucionário a sua generosidade e empenhamento político levam-no a Trás-os-Montes, onde dirige o Gabinete de Apoio Técnico (GAT) de Bragança (1975-1977). Nos dois anos seguintes trabalha na reconstrução de Moçambique.

Regressado a Lisboa, ao longo das décadas seguintes aprofunda reflexões já iniciadas, trazendo à estampa a obra de referência História da Arte Moderna (1986), avançando pioneiramente uma interpretação não ortodoxa da história presente igualmente no ensaio “A Noção de passado na Arquitectura das décadas difíceis” (Rassegna, Milano, 1994), ao mesmo tempo que desenvolve exposições sobre autores-chave da nossa cultura: Carlos Ramos ou Viana de Lima. A sua tese de doutoramento – [ı]Os Concursos de Sagres - “Representação 35”. Condicionantes e Consequências – retoma o trabalho crítico de uma vida, equacionando polemicamente a história do século XX fixada até aí, centrando a sua pesquisa nas raízes que enformaram o período do Estado Novo e aí lançando possibilidades de interpretação inovadoras para a situação de tabu estabelecida até aí.

Instaurador da construção crítica, Pedro Vieira de Almeida marcou profundamente o debate arquitectónico desde os anos 60 em diante. Participou activamente, aliás o único modo que conheceu de participar, em numerosos seminários, conferências, encontros e debates. Publicou em diversas revistas nacionais e internacionais nomeadamente: Arquitectura, Hogar e Arquitectura, Informação Social, Colóquio-Artes, Rassegna, Arquitectos.

A sua actividade docente iniciou-se no Ar.Co onde foi professor de Teoria da História de Arquitectura (1973-75), sendo desde a década de 80 professor de Teoria da Arquitectura na Escola Superior Artística do Porto e investigador do Centro de Estudos Arnaldo Araújo. Fazendo da história da arquitectura um elemento importante da disciplina arquitectónica, propôs uma crítica da génese da arquitectura que aprofunda a compreensão da obra arquitectónica nas suas relações entre estrutura e arte, como consequência directa de processos sociais, onde é manifesta uma coerência histórica e interpretativa.

Reivindicando uma ética de fidelidade às ideias, defende para a sobrevivência do intelectual uma automarginalização controlada ou um papel marginal consciente. Denunciando o facto de que a reflexão teórica não se pode desligar da acção, na medida em que a modernidade demonstrou que a função dos que se ocupam de uma arte como a arquitectura é um papel crítico, Pedro Vieira de Almeida soube pôr em relevo o que não se vê e que pode ser descoberto olhando a realidade de um modo novo, contribuindo assim para a maturidade da cultura arquitectónica portuguesa.

Obras principais:
Raul Lino, exposição retrospectiva da sua obra. Braga: Fundação Calouste Gulbenkian/ Árvore-Centro de Actividades Artísticas, 1970 (em colab.).
Arquitectura do século XVIII em Portugal. Pretexto e argumento para uma aproximação semiológica. Braga: Separata, 1973.
Modernismo-Pos-modernismos. Paris: Centre Pierre Francastel, 1984.
História da Arte em Portugal, vol. 14. Alfa, 1986 (em colab.)
Carlos Ramos, exposição retrospectiva da sua obra. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1986 (em colab.).
“Forma e Imagem no Urbanismo de 700 e 800” in Estudos de História e Arte. Homenagem a Artur Nobre de Gusmão. 1995 (em colab.).
Viana de Lima arquitecto 1913-1991. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1996.
Eduardo Nery 1956-1996. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1997.
“Arquitectura e Poder: representação nacional” in Portugal:Architektur Im. 20 Jahrhundert. DAM/PF 97, 1997 (em colab.).
Os Concursos de Sagres - “Representação 35”. Condicionantes e Consequências. Universidad de Valladolid, 1998.
Apontamentos para uma Teoria da Arquitectura. Lisboa: Horizonte, 2009.

Ana Tostões

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