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João Manuel Barbosa Menezes de Sequeira. Director do Departamento de Arquitectura da Universidade Lusófona de Lisboa
Marta Sequeira. Directora do Departamento de Arquitectura da Universidade de Évora
Ensino da Arquitectura. Como podem Estado e privado relacionar-se?
04.05.2012
Responsáveis pelos departamentos de Arquitectura de uma universidade privada e de uma universidade estatal, João Menezes Sequeira e Marta Sequeira, comentam o ensino da Arquitectura em Portugal e apresentam argumentos, numa notícia publicada no ba 226. Veja aqui a entrevista completa.

Como vê o actual estado do ensino privado/público da Arquitectura em Portugal?

JMS. Não sou muito apologista dessa distinção público/privado, pois ambas são serviço público, prefiro a ideia de estado/privado. A dicotomia na verdade refere-se exclusivamente à forma de financiamento e propriedade.
Não distingo os problemas que actualmente o ensino da arquitectura sofre, entre estado e privado, penso que os problemas do ensino da Arquitectura em Portugal são transversais.
Desde o final da 2ª grande guerra que, a nível europeu, os sistemas de criação, organização e gestão do conhecimento mudaram, mas a academia, responsável em grande parte por esta mudança, tem mostrado, paradoxalmente, muita dificuldade em assimilar as consequentes transformações no ensino. Em geral continuamos com estruturas semelhantes ás usadas no início do século XX, delimitações disciplinares férreas e formações académicas unívocas, modelos de investigação clássicos e ultrapassados, etc.
Os modelos educativos que versavam uma epistemologia de modelo individualista cederam, no pós-guerra, à percepção de que os novos conhecimentos implicam processos sociais e, deste modo, a ligação entre sociedade e conhecimento passou a ser um novo paradigma. Infelizmente esta revolução tem tido forte oposição, sobretudo do próprio sistema capitalista que vive à custa das ilusões produtivas individualistas associadas ao edonismo consumista.
Já nos anos 80 e 90, antes de uma efectiva assimilação daquele novo modelo epistemológico, mas resultante do mesmo, assistimos a uma revolução tecno-digital, que altera definitivamente os instrumentos e canais da criação, difusão e apreensão do conhecimento. Na arquitectura, os instrumentos digitais que se iniciaram apenas como novos sistemas de representação, evoluiram a um ponto tal, que se tornaram verdadeiros sistemas de concepção arquitectónica. A alteração na transmissão dos conhecimentos através da transformação dos meios de difusão é ainda hoje uma situação muito presente e dificilmente se podem prever as consequências, apenas se pode adiantar que hoje assistimos a uma enorme profusão da informação disponível (de qualidade mas não só) que parece estar a provocar uma certa indiferença, ao mesmo tempo que parece estar a destronar, por desgaste, o modelo individualista. Mas é importante notarmos que os suportes lectivos estão a mudar, que hoje o conhecimento se organiza em múltiplos espaços heterogéneos, vejam-se as experiências que já existem de projectos de ideias partilhados on-line como foi o caso do “Open Japan” e outros, organizado por docentes universitários cujo percurso entre as diversas universidades europeias é já um sintoma de alteração dos anteriores paradigmas.
A imediatez da distribuição da informação e a sua democratização, começa, ao nível da investigação, a destronar o império dos livros e a favorecer um conhecimento disseminado por artigos online. As teses de doutoramento, que se pretendem mais actuais, já apresentam uma bibliografia maioritariamente preenchida por artigos científicos.
A velocidade das alterações que hoje se imprimem ao mundo do conhecimento, tem também como consequência, pelo menos nestes primeiros tempos, uma superficialidade generalizada ao nível da critica arquitectónica, da investigação e sobretudo ao nível da aprendizagem.
Tudo isto implica uma alteração dos sistemas de ensino, que deverá passar a dar mais importância à capacidade crítica sustentada num mais amplo conhecimento teórico e à capacidade de investigação. Uma investigação que também já não procura a classificação e a estrutura permanente, mas a capacidade de unir diferentes tipos de conhecimento num único espaço de conhecimento.
A tentativa de enraizar a informação como conhecimento, evitando a sua flutuação e dispersão, tem levado à percepção de que o ensino se deve basear mais na aquisição de competências, por parte dos alunos e não apenas na transmissão de conhecimentos pelos professores. As competências adquirem-se, sobretudo, através de uma aproximação à aplicação dos conhecimentos na prática. Ora, este modelo de ensino já era praticado pelas Faculdades de Arquitectura hà muito tempo, pelo que hoje, o ensino da arquitectura está mais actual do que o ensino nas restantes áreas científicas, facto este que, aliado a outros, explica a enorme procura que a arquitectura teve e continua a ter, relativamente aos outros cursos.
No entanto, a criação de regras “top down” no ensino europeu, a par da impotência que os países têm vindo a adquirir face à Comissão Europeia, tem vindo progressivamente a dificultar o funcionamento das escolas de arquitectura, quer pela introdução de reformas; que aplicando-se a outros cursos, não eram fundamentais na arquitectura, nomeadamente os sistemas formais de organização dos graus e ciclos de estudo (3+2 ou 4+1); ou ainda, à urgência na introdução dos sistemas de investigação, provenientes quer das ciências ditas duras (matemáticas e ciências naturais), quer das ciências humanas e sociais (incluindo as artes).
O que aconteceu em Portugal foi o pior que podia ter acontecido, uma adaptação apenas formal daqueles sistemas, bem como uma incapacidade para discutir estes assuntos por parte das universidades portuguesas, fruto, em grande parte, da actual divisão do ensino em estatal e privado. Aqui, o ensino privado poderia ter tido uma voz activa muito importante, pelas suas características de maior abertura e elastecidade face às mudanças.
A solução encontrada foi a do Mestrado Integrado, não graças às Universidades do Estado, mas à Ordem dos Arquitectos, que teve um papel fundamental e louvável pela sua capacidade de negociação a nível europeu.
A ideia de Investigação em Arquitectura nunca teve uma discussão de carácter nacional emanada das Universidades do Estado ou do Conselho de Reitores. A discussão é hoje feita a nível europeu e Portugal está representado de modo activo apenas por algumas Universidades Privadas, pese embora últimamente algumas Faculdade estatais, sobretudo de Lisboa, terem condescendido em enviar um ou outro representante de forma quase pontual e com carácter de observadores, mais do que elementos activos. Discute-se hoje, ao nível de diversas organizações europeias, o que é investigação arquitectónica, quais as suas especificidades, como avaliar a qualidade dos métodos e correspondentes resultados, que tipo de resultados podem ser esperados, tanto ao nível formal como ao nível de conteúdos, etc. No contexto da EAAE (European Association for Architectural Education) já foi produzida, com a nossa participação, uma Carta Europeia sobre a investigação em Arquitectura e discute-se agora o enquadramento (framework) da investigação arquitectónica, tendo sido criada uma Comissão que apenas está a estudar e a discutir a investigação através do projecto ou concepção, aquilo que os anglosaxónicos designam por “research by design”.
Um outro aspecto que tem sido prejudicial nas Universidades tem sido a obrigatoriedade do cumprimento de rácios de doutorados entre os docentes dos cursos de arquitectura. Este aspecto tem tido consequências variáveis e permissividades variáveis por parte da Agência Nacional de Acreditação e Avaliação, infelizmente sempre em prejuizo das Universidades Privadas. Trata-se de uma matemática complicada que usa o sistema de classificação CNAEF e contabiliza doutorados, tempos contratuais e doutorados na área científica. As consequências, em Faculdades de Arquitectura sobredimensionadas, tem sido desastrosa, não tendo iguais consequências em Faculdades ou Departamentos mais pequenos. No entanto, no caso da arquitectura, deveria existir outra contabilidade que pudesse considerar os arquitectos com fortes ligações à prática profissional também contabilizáveis nessas matemáticas. Não estou com isto a dizer que se deva considerar um profissional ao nível de um doutorado, mas que o número de doutorados poderia descer em função do número de docentes com prática profissional activa, isto pelo menos, até se estabilizar e normalizar a investigação por projecto (practice-based research ou practice-led research).
Finalmente, a influência da actual crise financeira em Portugal tem tido nos últimos tempos, sobretudo ao nível da Faculdades de Arquitectura do Estado, aspectos catastróficos, levando a consecutivos despedimentos de docentes convidados, geralmente docentes com fortes ligações à prática profissional, deixando as Faculdades com um corpo docente de doutorados e investigadores formados segundo os sistemas de investigação em ciências humanas. Não estou com isto a dizer que essa formação seja prejudicial, estaria nesse caso a atacar a minha própria formação, pois também tive um programa de doutoramento com esse modelo, mas apenas a dizer que uma ausência de docentes com fortes ligações à prática profissional vai criar um hiato entre teoria e prática, relação que sempre foi uma das mais fortes características do ensino arquitectónico em Portugal. A formação nas faculdades do estado irá ressentir-se fortemente nos próximos anos, com um agravamento na qualidade dos seus finalistas.

Que caminhos perspectiva para o ensino privado/público da Arquitectura em Portugal?
JMS. Dado o elevado número de cursos de arquitectura e a situação financeira do país, penso que iremos assistir a um periodo de emagrecimento forçado, sobretudo dos grandes e sobredimensionados cursos de arquitectura, estatais e privados. Últimamente tem vindo a espalhar-se a ideia de que o melhor é fechar cursos, a minha opinião é contrária e baseia-se muito no que acontece ao nível dos paises do norte da Europa. Por isso, quando me dizem que existem 23 cursos de arquitectura em Portugal, não considero isso um aspecto negativo, bem pelo contrário, basta pensar que se todos se caracterizássem por identidades próprias, teriamos uma riqueza extraordinária de formações e a arquitectura portuguesa ganharia imenso com isso. Por outro lado, existe no nosso país uma tendência paternalista, provávelmente herdada do estado novo, que leva os responsáveis que trabalham em organismos oficiais, em nome da defesa dos futuros empregos dos arquitectos, a acharem que devem intervir no processo, “fechando cursos”, como se o número de cursos tivesse algo que ver com as opções de vida dos indivíduos.
A criação de condições para a diversidade e para a demarcação de identidades dos diversos cursos de arquitectura, é a questão fundamental mas, para isso, alguns aspectos têm de ser repensados. O actual modelo curricular dos cursos de arquitectura é excessivamente homogéneo e não tem permitido a diferenciação, criando-se a noção de que a diferenciação se faz apenas pelos estilos, isto é, através da coesão estilistica do seu corpo docente. Por outro lado, a necessidade desta diferenciação tem gerado a ideia de criação de mais pós-graduações, especializadas em certos aspectos da profissão. Não sendo necessáriamente negativos, estes aspectos têm ocultado a possibilidade de outro tipo de diferenciações. Diferenciações que podem muito bem resultar de outros sistemas de ensino, veja-se a este propósito a experiência inglesa de certas escolas do ensino privado e estatal como a AA e Bertley.
Acredito que a diferenciação dos diversos cursos só se pode fazer através da introdução plena da investigação ao nível do ensino, tanto no 1º como no 2º ciclos, resultando naturalmente, em especificidades de maior qualificação ao nível do 3º ciclo de estudos. Mas repito, tudo isto implica uma discussão séria sobre a investigação na disciplina arquitectónica e poucos são os que estão a fazê-la.
Um outro aspecto que me parece determinante, é o estabelecimento de relações mais intimas entre as universidades do estado e privadas, quer através de protocolos de mobilidade de docentes, quer através do estabelecimento de redes entre os diversos centros de estudo. É surpreendente, que só quando fomos visitados pela Agência de Acreditação A3ES nos tenhamos apercebido que o nosso Departamento tem relações mais fortes com as Faculdades europeias do que com as faculdades portuguesas. O que tem permitido aos nossos alunos um percurso mais diversificado.
O estabelecimento de redes de investigação obedece a estratégias concertadas na Comissão Científica, dos núcleos de investigação e não implica que as redes se devam estabelecer apenas entre centros de investigação de arquitectura. No nosso centro de estudos (LabART) estamos a fazer esforços para estabelecer redes com outros centros que nos permitam abordagens mais interdisciplinares, procurando envolver os nossos alunos finalistas nestes projectos.
Por estas razões e resumindo, acredito que os bons cursos de arquitectura têm todas as hipóteses de sobreviverem desde que criem identidades próprias

Como deverão relacionar-se o ensino público e o privado ( e vice-versa )?
JMS. As relações têm de mudar, uma relação saudável pressupõe igualdade de condições, caso contrário não existe relação possível. Por isso, não se pode continuar a sustentar a falsa ideia, que se tenta passar para a opinião pública, de que existe igualdade entre os dois sistemas. O comportamento do poder político, relativamente ao ensino superior privado, tem sido sempre muito dúbio: por um lado aceita-se, mas não se financia e, ora nada se exige (como foram os primeiros anos), ora se exige mais do que ao público (como tem sido últimamente); por outro, defende-se o estatal através de um financiamento cego e pouco controlado, criando, também aqui, problemas que agora estamos todos a pagar.Em todo o caso não existe nem nunca existiu igualdade de tratamento.
Senão vejamos:
Neste momento as universidades privadas não têm representação no Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas (CRUP), tal como, somente Institutos Politécnicos do Estado compõem o Conselho de Institutos Politécnicos (CCISP) e nos Órgãos Nacionais verifica-se que só têm representação o ensino estatal e concordatário. A igualdade entre os diversos estabelecimentos de ensino, sejam estatais ou privados tem de começar a ser uma realidade, não podemos continuar a ter incentivos à investigação apenas decididos pelo Estado e, infelizmente, com agendas que nada têm que ver com as efectivas necessidades do país, tal como, não podemos continuar a ter apenas uma Agência de Acreditação e Avaliação imposta pelo Estado e com poderes quase judiciais. Não haja equivocos, o trabalho que tem sido desenvolvido pelas Comissões de Avaliação Externa da Agência A3ES, tem sido importantíssimo e deve continuar a existir, pois permite ouvir criticas externas muitas vezes confirmando e motivando as ideias das Direcções e dos Conselhos Científicos ou mesmo aconselhando aspectos científicos em que havia dúvidas.
Os resultados da actuação da agência não são necessáriamente negativos, mas não deixa de ser preocupante a obrigatoriedade de responder ao monopólio de uma única Agência com poderes extremos (fechar cursos). Julgo que seria mais interessante ter avaliações bianuais dos cursos, de publicitação obrigatória e consulta livre e pública. Deixando aos alunos candidatos a liberdade de escolha e constituindo uma espécie de ranking qualitativo e caracterizador – apontando características identitárias dos diversos cursos, tipo de ensino, etc. Numa palavra, deixar de fazer as coisas pela negativa como tem sido costume em Portugal e passar a fazer as coisa pela positiva. Por outro lado, as Comissões de Avaliação Externa deveriam ter membros sorteados representantes de todas as universidades estatais e privadas e de universidades europeias conceituadas, acautelando naturalmente os conflitos de interesses. Caso isto se constitua como uma quimera para algumas mentalidades então teriamos de aceitar a hipótese de constituição de diversas Agências, segundo critérios europeus derivados das instâncias oficiais ou de consulta de Agências europeias já constituidas.
Só assim garantimos uma equidade entre os diversos estabelecimentos de ensino, sejam eles privados ou do estado.
A investigação é também um aspecto que deveria ser revisto urgentemente, não podemos continuar a ter um sistema que privilegia acreditações provenientes de fundações subsidiadas apenas pelo estado, pois cria “promiscuidades” financeiras perigosas prejudicando a investigação nacional. Sobretudo nos actuais moldes em que vivemos, pois uma estratégia nacional de investigação deve passar pela consulta de órgãos representativos de todo o ensino superior, privado e estatal, assegurando desse modo uma relação entre meios e objectivos.
Finalmente, o financiamento do ensino superior não pode continuar a obedecer às mudanças políticas dos diversos governos, que ora financiam exclusivamente o ensino superior estatal ora geram algumas ajudas ao ensino superior privado. O ensino superior estatal vive sobretudo à custa do financiamento estatal, enquanto o ensino superior privado vive sobretudo das propinas dos alunos que o frequentam. O descontrolo do financiamento estatal está hoje à vista, fruto de salários mais elevados para os docentes, de um excesso de docentes, de gastos de manutenção abusivos, de regalias, etc. Não é possível haver equidade e menos ainda competição segundo os actuais moldes de financiamento. Existem muitas soluções possíveis, umas melhores que outras, mas sobretudo convém haver uma discussão séria em torno deste assunto e acabar definitivamente com este vício nacional de “enterrar a cabeça na areia” sempre que o problema coloca questões incómodas. A equidade entre os ensinos superiores Estatal e Privado propiciaria uma relação mais saudável entre ambos, da qual o ensino da arquitectura nacional sairia fortalecido.


O ensino da Arquitectura. Dois modelos

Cualquier centro de educación tiene como alternativa seguir uno de los dos grandes modelos de formación inventados hasta ahora por la Humanidad: el servicio militar o las academias de idiomas. No hay otro. En el servicio militar lo importante es el título, el certificado, la papeleta que permite no volver a pisar el cuartel. [...] En cambio en la academia de idiomas el diploma sirve de poco, ni es realmente necesario, puesto que lo determinante es la capacidad de haber incrementado las aptitudes propias y eso se comprueba y aplica inmediatamente. Uno se sentiría estafado por la academia si, tras cinco años de estudios y un título, no entendiera palabra de lo que le está diciendo un taxista en Londres o Berlín. ¿Por qué no ocurre esa misma sensación de vergüenza y estafa entre quienes salen, con su título bajo el brazo, de una Escuela de Arquitectura? ¿Por qué no reclaman de la Escuela lo que reclamarían de cualquier academia de idiomas? La respuesta es simple: porque las Escuelas de Arquitectura no siguen el modelo de las academias de idiomas, sino del servicio militar.
Josep Quetglas


No actual modelo de ensino de arquitectura, os estudantes, em muitos casos, ocupam-se da aprovação rotineira nas várias unidades curriculares, das dificuldades associadas ao pagamento das propinas, das diferentes formas de creditação de competências, da obtenção de determinado número de ECTS e, por fim, do diploma, num sistema altamente burocratizado, onde a aquisição de conhecimentos é menos relevante. Valoriza-se assim a mera obtenção do título, nunca se aferindo a sua plenitude e em detrimento do que é verdadeiramente importante: a preparação para o mundo profissional. Apesar de poder ser considerada um fenómeno recente, por ser originária do século XIX, a avaliação é, em qualquer escola de arquitectura, pública ou privada, um símbolo da importância desmesurada dos formalismos em detrimento dos conteúdos, pervertendo largamente as relações pedagógicas por se ter tornado o centro dos resultados obtidos. A atribuição de classificações não responde a uma necessidade educativa, nem está forçosamente ligada à aprendizagem; no entanto, em quase todas as escolas de arquitectura, os alunos não reclamam do absentismo de um docente nem da sua incapacidade ou incompetência, mas, absurdamente – porque deveria ser o menos importante destes infortúnios –, reclamam amíude de classificações que consideram menos justas. Estão inseridos numa sociedade onde é atribuído especial valor a um resultado imediato e superficial e onde se desvaloriza o conteúdo, o conhecimento e a erudição.
No Departamento de Arquitectura da Universidade de Évora (1) tem-se procurado, com persistência, estabelecer uma alternativa a este entendimento do ensino; o curso de Mestrado Integrado em Arquitectura assenta a sua aprendizagem nos cinco ateliers de projecto, compreendendo-a como uma produção cultural, para onde confluem as diversas áreas do saber, num ensino claramente ligado à prática profissional e à investigação. A escola tem sido palco de workshops e palestras internacionais, sendo já reconhecida como uma considerável plataforma de discussão sobre alguns dos principais temas da cultura arquitectónica contemporânea. Com uma forte cultura de atelier, professores e alunos trabalham em equipa de modo a fazer face a desafios estimulantes, criando-se assim uma extraordinária relação de ensino e, acima de tudo, pensamento e aprendizagem da Arquitectura. Neste curso procura-se, com firmeza e persistência, dar ênfase a que o importante não é o título, mas os conhecimentos que o estudante de arquitectura leva para a sua vida profissional.
Não se privilegia, por outro lado, o estabelecimento de uma relação passiva, indolente e seguidista com a actualidade, mas uma busca por uma intemporalidade na acção, um certo conservadorismo e vanguardismo em simultâneo, estabelecendo-se então, a partir do conhecimento obtido ao longo dos tempos, uma atitude crítica e transformadora. Acredita-se que só assim se conseguirá que o conhecimento que os estudantes adquirem durante o curso não se torne obsoleto perante a alteração de uma qualquer variável. Pretende-se que, pelo contrário, se possa adequar a qualquer circunstância.(2)
Procurou-se que esta predisposição de formar para a profissão tivesse sequência em todos os graus de ensino, o que permitiu repensar o actual modelo de estudos de 3.º ciclo. Se observarmos o panorama das teses em Arquitectura realizadas até agora, tanto a nível nacional como internacional, o grau de Doutor em Arquitectura tem sido, genericamente, um título académico atribuído a arquitectos que elaboram uma dissertação teórica; no entanto, pareceria natural que o acto projectual fizesse parte de uma investigação avançada em arquitectura. A realização do novo curso de Doutoramento em Arquitectura da Universidade de Évora (3) pressupõe a elaboração de uma investigação teórico-prática que constitui uma contribuição inovadora e original para o progresso do conhecimento, desmistificando-se e concretizando-se o conceito de formação avançada em Arquitectura com base na investigação em projecto. O acto projectual é então aliado à formulação de uma hipótese teórica, transformando-se a concepção arquitectónica, caracterizada pela sua particularidade e singularidade, num veículo para o conhecimento universal.
Numa época em que são exigidos elevados rácios de docentes doutorados por aluno, por outro lado, os estudos de 3.º ciclo ganham um papel extremamente relevante na definição do futuro do ensino da Arquitectura em Portugal. O curso de Doutoramento em Arquitectura da Universidade de Évora contribui assim para que o ensino da Arquitectura não seja, no futuro e por imposição, leccionado apenas pelos que veem a Arquitectura como um campo de trabalho teórico, especulativo e crítico, como também pelos que aprofundam e desenvolvem as suas competências no âmbito da investigação em projecto, tal como, desde sempre, nos cursos mais reconhecidos a nível internacional.
Em complemento e consolidando o modelo de ensino centrado nos conteúdos e na preparação para a vida profissional, dever-se-á cuidar da integração dos alunos no mercado de trabalho após a conclusão dos seus cursos (4). De resto, e no contexto da actual viragem económica, haverá um tempo em que não restará alternativa: universidades públicas e privadas terão de reunir recursos e competências para oferecer uma formação para a profissão, onde qualquer estudante não poderá deixar de exigir, para além do título, o conhecimento.


(1) O departamento teve a sua origem em 2001 e pertence à Escola de Artes, onde se incluem igualmente os departamentos de Artes Visuais e Design, Artes Cénicas e Música, proporcionando um ambiente de estudo multidisciplinar único no panorama do ensino da Arquitectura em Portugal. O seu corpo docente é constituído por reconhecidos investigadores doutorados, bem como por arquitectos com uma prática projectual construída largamente reconhecida a nível nacional e internacional. Actualmente com cerca de 330 alunos no Mestrado Integrado e 15 no Doutoramento, tem lugar numa antiga fábrica recentemente recuperada, oferecendo as condições ideais para a aprendizagem da Arquitectura.
(2) O Curso de Mestrado Integrado em Arquitectura da Universidade de Évora é, por isso, e quando posto à prova internacionalmente, amplamente reconhecido. São disso exemplo os recentes resultados obtidos pelos alunos do Curso de Mestrado Integrado da Universidade de Évora no concurso de arquitectura internacional VHOM «Viena House of Music», organizado pela Arch Medium, onde, dos 416 inscritos no concurso (provindos de mais de 30 países distintos), foram seleccionados pelo júri apenas 30 finalistas, que incluíram 10 trabalhos de alunos desta escola - foram obtidos os 1.º e 3.º prémios, bem como duas menções honrosas.
(3) O Curso de Doutoramento em Arquitectura da Universidade de Évora teve a sua origem em Fevereiro de 2012. O curso alia a excelência do ensino de projecto na Universidade de Évora ao rigor da sua investigação científica, estimulando o desenvolvimento de trabalhos de investigação avançada que fomentem a interacção entre a reflexão teórica e a produção arquitectónica. O corpo docente é constituído pelos seguintes professores da Universidade de Évora: João Luís Carrilho da Graça (director de curso), Aurora Carapinha, Cláudia Giannetti, João Rocha, João Soares e Marta Sequeira. Conta ainda com a participação de professores reconhecidos, vinculados a universidades ou instituições destacadas nas áreas afins ao curso - Antonio Jiménez Torrecillas, Delfim Sardo, Guilherme Carrilho da Graça, Manuel Aires Mateus, Manuel Graça Dias, Paulo Martins Barata e Yehuda Safran – e tem contado com a presença de reputados conferencistas nas unidades curriculares de Seminário - Alexandre Alves Costa, Alfredo Cunhal Sendim, Eduardo Souto de Moura, Gonçalo Ribeiro Telles, João Ferrão, Jorge Gaspar, José Delgado Domingos, Manuel Collares Pereira, Mário de Carvalho, Miguel Reimão Costa e Sérgio Fernandez.
(4) Está em vias de implementação a criação de uma bolsa de inserção no mercado de trabalho que conta com protocolos estabelecidos entre o Departamento de Arquitectura da Universidade de Évora e diversos ateliers de arquitectura de excelência nacionais, bem como a criação de spin-offs, através das quais os alunos do Curso de Mestrado Integrado da Universidade de Évora poderão criar a sua própria empresa de Arquitectura. Apesar deste curso ser extremamente recente, os licenciados e mestres em Arquitectura pela Universidade de Évora são hoje profissionais que se têm afirmado no panorama nacional e internacional através dos prémios que têm obtido e da sua integração nos mais prestigiados gabinetes internacionais, demonstrando a inteligência da actitude que tiveram enquanto estudantes de Arquitectura.

Marta Sequeira

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