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testemunho de João Santa-Rita
11.03.2013
Manuel Vicente, Arquitecto (08-12-1934 - 09-03-2013)

O Manuel Vicente encontrava-se doente há uns dias. Estava muito débil quanto o visitei ontem pela manhã pela última vez. Penso até que não terá dado pela minha presença. Recebi hoje pela manhã a notícia da sua morte através do Manuel Graça Dias. A vida, a arquitectura e o mundo ligava-os e muito.
É uma daquelas manhãs que nos ficam gravadas para sempre, no coração, no corpo e na memória, pela comoção, a emoção e a profunda tristeza que a marcaram.
O desaparecimento do Manuel Vicente representa uma grande perda para a Arquitectura e para a Cultura.

Foi um Homem, um Arquitecto e um Mestre para muitos, para todos.
Assim permanecerá na minha memória e na minha companhia.

Um profundo e intenso amigo cuja presença é difícil de esquecer, sendo-me mesmo impossível conceber a vida e o meu universo com a sua ausência.

Poucas são as pessoas que marcam a nossa vida, os pais, os irmãos, a família e apenas alguns amigos, certamente.
O Manuel atravessou a minha vida, esteve presente desde a minha infância, passando pela minha adolescência, até ser adulto e até ambicionar ser arquitecto. Depois veio a amizade, a companhia, as aulas e o trabalho que me uniram ao Manuel Vicente até ao dia da sua morte.
No momento em que selaram o caixão do meu pai, apenas estavam três amigos ao meu lado, o Manuel Vicente era uma deles.
Um amigo do coração do qual nunca me esquecerei.

Foi um dos poucos amigos do meu pai que me encantaram desde muito cedo e pelo qual tinha um enorme prazer, quer na sua presença, quer na sua companhia.
A vinda do Manuel lá a casa ou a ida ao seu atelier eram tão desejadas quanto intensamente vividas. O Manuel era um homem diferente, mesmo para uma criança ou um jovem. Cativante, conversador, curioso, atento e atencioso, e mais do que tudo estava sempre pronto a ouvir mesmo os filhos do seu amigo.
Muitas vezes, mais tarde, procurei-o para lhe pedir conselhos e ajuda e sempre encontrei da sua parte e sem restrições o tempo e a disponibilidade que precisava.

O Manuel Vicente era assim mesmo, um homem sem limites para o que queria fazer, para o que queria dizer, para o que queria pensar. A arquitectura foi o seu cometimento, a sua vida, e penso que todos nós e tudo cabiamos, cada um a seu modo, dentro desse seu universo.
O Manuel amava profunda e intensamente o exercício da vida bem como o da arquitectura, e nestes incluiam-se os amigos, os conhecidos, os colaboradores e os seus estudantes.

A sua amarração e encanto pela vida fez que muitos o acompanhassem independentemente da sua idade e da sua formação. Tinha amigos entre todas as gerações e todos o procuravam com um interesse, vontade e desejo, invejáveis.
Escreveu-me hoje o meu irmão Zé Santa-Rita a seu propósito, e recordando o tempo dos seus dezoito e dezanove anos. “Para mim o Manel é e sempre será o amigo cujas gargalhadas me lembro tão bem de ouvir em prolongados serões no seu atelier perto da Academia das Ciências onde, ao fim de horas de trabalho intenso, com o nosso pai e o António Marques Miguel, se seguia quase sempre uma sessão de boas anedotas ou episódios divertidos da vida de cada um. Enfim, resta-nos guardar a sua memória, a memória de um amigo maior que a vida e cuja presença enchia qualquer sala como a luz de um sol sem fim.”

Nada foi indiferente ao Manuel Vicente, tudo o que existia era-lhe caro, motivador e pretexto para reflexão e invenção. Assim também sucedeu com os mundos que conheceu transformando-os num motivo para a sua própria existência enquanto homem, mas mais do que tudo enquanto arquitecto. Como diria Eric Lye, o Manuel Vicente passou pela vida acariciando o que gostava mas também o que não gostava. Foi também esse o seu grande desafio, transformar em algo muito melhor aquilo que encontrava, lidando tanto com o vulgar como com o extraordinário.

Muitas vezes dizia perante a visita a uma obra ou a um espaço, menos cuidados ou qualificados, “se me dessem um bom carpinteiro, uns painéis e umas madeiras, transformava isto em algo sublime”, ou perante o trabalho de um aluno no qual adivinhava a existência de potencialidades, “ podia continuar sem problema este teu trabalho e teria um enorme prazer em desenvolvê-lo e fazer dele um projecto”.

A generosidade do Manuel Vicente, também essa sem limites, estava bem presente no modo como nos amava, estimava e odiava também por vezes. Não porque nos odiasse na realidade, mas apenas porque reagia intempestivamente perante aquilo que não compreendia. Era o seu modo de nos demonstrar a sua amizade e como tal a sua incompreensão perante uma atitude ou um comportamento menos esperado e amigo da nossa parte. Possivelmente ambicionava e esperava que todos pudessemos ser perfeitos, como uma vez assim me confessou.
Era igualmente de uma enorme e surpreendente generosidade no modo como nos recebia, como nos ouvia, como nos ajudava e até como nos juntava e nos dava a fazer novos amigos.

Ainda recentemente o Manuel Vicente, o Pedro Ravara, o Pedro Ressano Garcia e eu juntámo-nos a pretexto do Concurso do Campo das Cebolas. Participámos mas não ganhámos, no entanto todos ficamos possivelmente mais amigos e próximos uns dos outros. Que sorte, por mim falo, ter tido essa derradeira e última oportunidade de partilhar ideias com o Manuel Vicente.

Essa generosidade sem limites, transportou-a também para o seu universo de arquitecto. Como se a sua vida existisse porque existia a arquitectura. A sua dedicação tanto a um projecto, como a uma obra como ao ensino era total, e a isso nos ensinou. O trabalho não parava por exaustão, mas a exaustão poderia ter de resignar-se em nome do trabalho. Coisa que aliás, devo confessar, aprendi muito cedo com o meu pai.

A sua obra é vasta mas sobretudo de uma intensidade impossível de nos passar despercebida.
Tem forçosamente de nos interessar mesmo que não nos encante.
A sua devoção e amor pela arquitectura também nunca nos poderão ser indiferentes, assim como não serão indiferentes os edifícios que construiu e ofereceu à vida das respectivas cidades.
A obra de Manuel Vicente não apenas modificou os locais onde interviu como os valorizou e enriqueceu, muitas vezes até de um modo quase imperceptivel para o comum dos cidadãos.
Pensou, desenhou e construiu com o que a realidade e a vida colocaram à sua disposição.
Abraçou a vida e as coisas com uma devoção e amor raros.

O Manuel Vicente deixou-nos muito mais do que lhe demos, tendo faltado certamente à história recente da arquitectura portuguesa, o interesse e o reconhecimento justos, que a sua obra impunha e impõe.
Talvez a natureza da sua obra, pouco pudesse dizer a um mundo, como o actual, conformado e pouco disponível para reflectir e questionar a realidade.
Nunca foi um homem de consensos, e talvez por isso, muitos entendessem que era incómodo e procuraram o distanciamento.
Mas o Manuel Vicente vivia através do olhar, da reflexão e do constante questionar da natureza das coisas e do mundo que o rodeava.
Colocou tanto em causa a obra de outros como o seu próprio trabalho. Quantos de nós, que com o Manuel Vicente tiverem a sorte e o prazer de aprender e colaborar, partilharam a violenta e aterradora experiência de refazer um trabalho quase concluído, em nome de uma invenção e convicção inabaláveis, ou da procura da perfeição da impureza.

Mas a sua obra fala-nos de tantas coisas e é sem dúvida de uma grandeza inesperada. Quanto visitei Macau, há dois anos, fiquei instalado defronte da Baía da Praia Grande. Todas as manhãs quando me levantava olhava para a Baía e sentia que o Manuel Vicente não só tinha redefinido os contornos, a paisagem e a percepção da cidade, como também tinha traçado a história do seu futuro ao desenhar um limite para o novo e ao conter o antigo e existente. Criou uma cidade que se olha a si mesma, propôs uma dimensão que lhe faltava.

Desde dois mil e nove e até ao dia de ontem partilhei com o Manuel Vicente, a realização do projecto e da obra de completamento e restauro da Casa dos Bicos para instalação da Fundação José Saramago.
Uma obra iniciada no início dos anos oitenta em parceria com José Santa-Rita, o meu pai. Com grande tristeza, uma obra que consumiu as forças de ambos e que acabariam por nunca ver concluída.
Muitas vezes durante a elaboração desta obra o Manuel Vicente confessou-me o quanto tinha sonhado e desejado ver a Casa dos Bicos concluída no seu todo. Infelizmente não alcançou esse desejo, porquanto a última fase da obra em curso ainda se encontra por iniciar.

Nos últimos anos, e quase até ao dia em que nos deixou, tive o grande prazer de leccionar ao lado do Manuel Vicente, fê-lo com uma entrega e dedicação totais, e sem que nos apercebessemos possivelmente do enorme esforço físico com que o fez já nas últimas semanas. Mas, o ensino da arquitectura foi a sua última ligação com o mundo que amava e o prendia à vida e do qual se sentia progressivamente mais afastado - o exercício da Arquitectura.

Há cerca de uma semana e meia, estava eu de partida para fora por uns dias, o Manuel Vicente ligou-me, era já noite e tarde, disse-me talvez pela primeira vez na vida que se sentia muito cansado. Escutei-o atentamente e levei comigo as suas palavras, mas acreditei na sua força e na sua perserverança que tanto o tinham ajudado noutros momentos difíceis. Afinal estava profundamente errado, os dias e as noites que se seguiram haveriam de consumir o seu intenso modo de viver.
Disseram-me que tinha morrido tranquilamente, a sua vida, essa, viveu-a de um modo intranquilo.

Obrigado Manuel por tudo o que nos deixou, por me ter perdoado quando poderei ter falhado e por me ter dado a oportunidade e o grande prazer da amizade que nos uniu. Até sempre com a mais profunda das amizades e admiração.

João Santa-Rita
9 de Março de 2013



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