agenda
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A Encomenda Prodigiosa . exposição
21.06.2013
Igreja e Museu de São Roque | 27 junho - 29 setembro
visitas orientadas:
quartas e domingos - 15h30 | excepto 18 agosto
1ºdomingo do mês (2 junho, 7 julho, 4 agosto e 1 setembro) - 11h30


"Entre as 9 e as 10 horas da manhã do dia 1 de Novembro de 1755, a zona central da opulenta cidade de Lisboa seria violentamente sacudida por um megassismo, seguido de maremoto. Em dez minutos («com uma pequena parada em meyo»), o coração orgulhoso da cidade desmoronava-se sobre os moradores. A circunstância de ser Dia de Todos-os-Santos e hora de celebração litúrgica pelas múltiplas igrejas e oratórios monásticos e particulares seria responsável por que o que restara da área mais monumental da urbe fosse, por consequência, pasto de um imenso incêndio, impulsionado pelo vento forte que se fez sentir e que lavraria sem controlo por cinco longos dias. As chamas, atingindo «meya legoa de altura», eram visíveis desde Santarém, reduzindo a escombros «todo o centro da Corte, com seus conventos, igrejas, palácios e cazas» e o que sobrara da convulsão da terra. Com a riqueza dos particulares, assim se consumia a parte mais substancial dos tesouros laboriosamente acumulados no Palácio Real, não somente no decurso dos sucessivos reinados, mas, muito particularmente, no de D. João V, que havia pouco findara, e cujas encomendas, aos melhores artistas de Paris e de Roma, alimentadas por décadas pelo ouro do Brasil, haviam ressoado pelas chancelarias europeias: fama que agora se refletiria na emotiva reação dessa mesma Europa às notícias dos trágicos sucessos lisboetas.

Entre as inestimáveis perdas figurava em lugar central a Basílica Patriarcal, estabelecida na própria capela do Palácio Real, por concessão de Clemente XI, em 1716, e sucessivamente engrandecida, a um tempo de privilégios litúrgicos e património artístico. De facto, no quadro de uma obsessiva emulação, cerimonial e estética, da Corte pontifícia - justificada em razões de ordem espiritual, cultural e política -, a Patriarcal, emergindo da própria Corte régia, converter-se-ia, paulatinamente, numa instituição sui generis no próprio quadro dos organismos eclesiásticos do mundo católico, justificando amplamente a viva impressão que deixaria nos forasteiros que puderam conhecê-la e a fixariam em pinceladas rápidas, como Colmenar - «resplandecente de ouro e azul» (Alvarez de Colmenar, 1751: III, 266) -, ou com um detalhe que permite captar-lhe o ambiente nas próprias vésperas do grande cataclismo. Assim, na verdade, a descrevia Courtils a escassos meses da destruição: «o altar-mor» - regista - «é todo de lápis-lazúli. O tabernáculo é de ágata. Duas colunas de lápis avultam à entrada desta capela magnífica, onde não se vê mais que mármore negro, amarelo e outras raras produções da natureza majestosamente trabalhadas. Não se vai nunca aí que se não note qualquer nova beleza. O mínimo raio de Sol faz revelar as que haviam escapado ao primeiro olhar. O teto é decorado de compartimentos e grupos dourados com cabeças de anjos nos intervalos. Aí se veem igualmente quadros do mais belo mármore servindo de sobreportas. O pavimento é coberto de placas de mosaico com uma esfera e seus atributos. Os mais magnificentes ornamentos correspondem à majestade desta capela» (Bourdon, 1965: 153-154).

Neste recinto, com efeito, cujo esplendor, perdido já no terramoto, o Dictionnaire Historique de Moréri insistia em divulgar pela Europa inteira, em 1759 («A Igreja Patriarcal é uma das mais magníficas igrejas que se conhecem hoje na Europa», escrevia-se, em atualização do verbete de Lisboa), pontificava o fausto extraordinário que rodeava o Patriarca («uma espécie de papa», no dizer de um memorialista) num cenário de superlativa riqueza ornamental, alimentado por militante encomenda internacional, mas coordenado, desde início, pelo arquiteto régio, o alemão romanizado João Frederico Ludovice (Ludwig). O roteiro devocional da Corte de Lisboa tinha, porém, um outro pólo, igualmente faustoso e emblemático: a Igreja de São Roque, casa-mãe da Companhia de Jesus, erguida a noroeste da zona atingida pelo sismo e, por isso, felizmente poupada. Para ela, D. João V encomendaria, em 1742 e de novo em quadro simbólico de sacralização da própria realeza, um monumento ao seu santo taumaturgo - a Capela Real de São João Batista -, que funcionava, no plano representativo como no artístico, como prolongamento do marco cénico da Patriarcal, cujo ambiente claramente replicava: era uma sua extensão, uma «fase anexa», como já foi referido, justificada desde logo na obsessiva romanização ritual da Corte de Lisboa e no papel nesse contexto desempenhado pela grande igreja inaciana.

Como sucederia com a Patriarcal, mas agora em termos de maior coerência formal, a empresa seria inteiramente realizada em Roma, nos mais preciosos materiais, sob a direção de Nicola Salvi e Luigi Vanvitelli, enquanto o seu extraordinário tesouro de alfaias se declinava pelos melhores artistas disponíveis, nos domínios da escultura, pintura, ourivesaria e têxteis: num processo despoletado de um só jato. Uma encomenda prodigiosa, verdadeiramente, em qualidade e extensão, coroando o longo investimento na Basílica Patriarcal e, como ela, submetida ao império normativo do arquiteto Ludovice: o que a converte num produto original e único, enquanto síntese de um debate estético e criativo entre Lisboa e Roma. Mas, sobretudo, numa sobrevivência em absoluto singular, na sua global integridade, do extraordinário processo criativo do qual emergiria.

Um processo, porém, cuja compreensão obriga, metodicamente, a percorrer o trilho seguido pelas ambições, estratégicas e representativas, da própria Monarquia, como seria configurada sob o governo de D. João V (onde a tutela do religioso reforça o prestígio da Coroa e lhe garante a eficácia do poder) (Pimentel, 2002: 96-98), tanto quanto perseguir os seus desaires e os compromissos que necessariamente houve de manter com a realidade sobre a qual lhe coube agir - sempre no quadro de uma estrutura simbólica onde a Corte desempenhava o papel central. É, por isso, no marco ideológico do Antigo Regime e num contexto cultural onde a religião ocupa um papel central («A corte submerge no sagrado» - escrever-se-ia sobre os anos finais de Luís XIV, contemporâneos dos iniciais de D. João V (Mongrédien, 1948: 9, 18-19) -, «missas, vésperas e lausperenes sucedem-se na capela de Versalhes») e entre o entusiasmo juvenil do soberano e o pragmatismo que a visão de Estado lhe ensinou, que devem buscar-se as razões de fundo da instituição do Patriarcado e dos cenários que habitou: da Capela Real à Capela de São Roque. Num fresco amplo e complexo, onde perpassam projetos ideais (Vanvitelli, Juvarra) e experiências magistrais (Mafra) e cujo eco se repercutiria, ainda, na própria reflexão que rodeou a reconstrução da capital. Reconstituir esse amplo fresco - e a viagem fascinante que conduz Da Patriarcal à Capela Real de São João Batista - é a tarefa a que se propõe este núcleo de A Encomenda Prodigiosa."

(texto de António Filipe Pimentel)



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