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Que mais poderia eu ter tido? . Siza Vieira: 80 anos de vida e 60 de profissão
27.06.2013
1971. Eram tempos de contestação social generalizada ao Estado velho, apesar da abertura marcelista. Na ESBAP, insistia-se com o Regime Experimental, como proposta de reestruturação do curso de arquitectura, tolerada pelo governo .
Tinha concluído o 1º ano, e no segundo, cedo se configuraram as dificuldades no seu início. O panorama à semelhança do anterior apontava, o que veio a verificar-se, para o arranque no segundo trimestre.

A Escola e o café S. Lázaro preenchiam os tempos vazios, mas cheios de campanhas de politização calorosamente defendidas pelos alunos mais velhos; marxistas - leninistas, maoístas, trotskistas, e suas extensões disputavam esta potencial audiência de debutantes, e pouco se falava de arquitectura e de sua disciplina senão nos seus aspectos mais genéricos, e en passant.

Havia que equilibrar este tempo vazio de conhecimento disciplinar, mas cheio de consciência política. A oportunidade surgiu num momento de grande pressão no escritório de Siza. Alguém me sugeriu, e lá fui para a conversa inicial - hoje chama-se entrevista. No fim, após as perguntas clássicas – quem és, o que fazes, qual a tua experiência e disponibilidade, mandou-me aparecer de tarde para um teste.

Um dos seus colaboradores, deu-me um rascunho a lápis para passar a tinta em papel vegetal de peça, com aparo graphos, uma espécie de tiralinhas profissional. Uma rasteira, acrescida de um segunda dado tratar-se, vim a saber no fim, do desenho de um pormenor de uma esquadria em madeira, à escala 1/1 e 1/20. Quando acabei, Siza e os outros colaboradores, debruçaram-se no desenho procurando o traço que não cruzava, a espessura irregular da linha, a falta de tinta, o tracejado que não o era. Não encontraram.

Comecei no dia seguinte, no escritório da R. da Alegria e em partime, regime de trabalho que sempre incomodou o Siza, mas que sempre tolerou. Trabalhava só de tarde, reservando as manhãs e as noites para a escola. Só havia dois estiradores, um para ele, outro na sala de reuniões; tudo o resto eram grandes portas horizontais sobre cavaletes de carpinteiro, como os que aparecem na ceia de Cristo de Leonardo. No topo esquerdo um perfil de alumínio, guia para o T de 120 cm; sobravam 80 cm para colocar toda a panóplia de utensílios, papeis com esquemas e rascunhos, maquetes, e tudo o que interessava para o trabalho, sem escorregar para o chão.


Nos primeiros tempos, pus em dia um monte de rascunhos que precisavam de ser acabados. Eram fundamentalmente desenhos de projecto de execução, cortes construtivos e pormenores diversos. Foi o meu primeiro contacto com outro momento e dimensão do projecto – escala e matéria, que naturalmente desconhecia. Tempos de ajuda preciosa para traduzir aqueles traçados que me pareciam ininteligíveis, quase mondriânicos, pacientemente revelados por Siza. Pensa como um construtor - dizia, e perceberás a sequência e a lógica das operações, identifica os elementos da construção, seus planos e limites, olha e regista o desenho das escadas por onde passas, das portas que atravessas, das janelas que abres, do tecto que te protege.
Tudo, começou a fazer sentido e a ser inteligível.

Fui de seguida promovido quando entrou um desenhador profissional e comecei a desenvolver os projectos com base nos esquissos que continham quase tudo – a implantação, a imagem e a sua representação, planta e corte, apontamentos perspécticos; mais ainda, a ordem, a disposição e programa, a métrica (sim, os croquis vinham cotados a eixo das paredes). Os esquissos também representavam com algum rigor o traçado regulador do projecto e a sua precisa localização no território.

Após uma prévia explicação sobre a informação contida nos esquissos, a transposição para desenho rigoroso a lapis 2H começava a dar corpo e forma ao projecto.
Siza gostava de ter tudo na mesma folha – quase sempre a 1/100 : os limites do terreno para corrigir alinhamentos e cotas de amarração, as plantas e o corte matriz – assim lhe chamava, para testar a escala e o dimensionamento , os alçados para ensaiar as proporções. O projecto parecia um ser vivo, mexia constantemente; corrigia diariamente o projecto, acrescentando ou transformando directamente no desenho, ou trazendo novos esquissos de partes do projecto.
Procurava claramente as continuidades num processo de transformação da forma (a forma nasce de outras formas), evitando rupturas, mesmo que as equacionasse como discurso de negação. As grandes dúvidas eram avaliadas em maquetes, muitas e a diferentes escalas, mais descontraídas ou elaboradas face à resolução do problema.

Não obstante os problemas familiares que o preocupavam, eram tempos de grande permanência do Siza no escritório; solicitava e partilhava opiniões, provocava e ouvia os argumentos contra ou a favor, alimentando a discussão sobre o projecto. E exigia que os argumentos e propostas alternativas fossem sempre traduzidos em desenho e em esquisso – a mente pensa através da mão, para além do comentário verbal.
Através do discurso dos outros, encontrava a lógica e coerência do seu próprio discurso. Quando a razão lhe fugia e os fundamentos faltavam, dizia olimpicamente que o Papa gosta - em alusão a uma célebre anedota.
Não dissimulava a obsessão em encontrar o equilíbrio ou a sua regra de ouro, a do projecto; quando não sabia procurava informação, investigava e estudava as experiências dos outros sem esconder – Loos, Aalto, Wright, Corbusier, Peter Oud e tantos outros, mesmo os da sua contemporaneidade ; trazia o livro ou revista e dizia: Adalberto, encontre aí a solução possível e de referência para este problema.

Para mim, foram os momentos de revelação da gravidade do acto de projectar, e de um método. Percebi a complexidade desse percurso, a necessidade de conhecer e investigar os problemas, formular hipóteses e testá-las, de encontrar os momentos de coincidência e de sobreposição dos diferentes factos e valores que formam e informam o projecto – como dizia e escreveu; tudo contribuía – o programa, as vontades do cliente e os desejos dele, o território e as referências da envolvente, o material e seus limites, a construção e o seu custo, etc. No final, tudo parecia claro e de uma enorme simplicidade , a descoberta através do desenho.

Mas o projecto não se esgotava naquela abrangente e estratégica representação. Continuava-se o aprofundamento do projecto à escala 1/50, na definição do processo construtivo e na escolha dos materiais, dos acabamentos e suas texturas. Percebi que outros intervinham e condicionavam o projecto – o engenheiro das estruturas, o da ventilação, o das águas e esgotos, o da electricidade. Siza ouvia-os atentamente e registava as suas exigências; e tudo o que o projecto não resolvia de maneira natural ou que ele não tivesse já previsto ou equacionado, transformava as resistências e mudanças inevitáveis em razão de ser do projecto.
Sobrava para mim – alterar esta escala de trabalho como as anteriores, e corrigir as plantas, cortes e alçados, e dizia “cresce” quando eu protestava contra esta (aparente) cedência disciplinar.

Mal desconfiava eu que este processo de revisão se repetiria mais vezes. Sem fechar ou dar por concluído o desenvolvimento à escala 1/50, Siza orientou-me para a pormenorização do projecto, partilhando o conhecimento grande que tem sobre os materiais, as suas técnicas, limites e potencialidades. As portas, janelas, o rufo, a cobertura, a soleira, as escadas, deixam de ser elementos tipificados e correntes e assumem a sua identidade própria e valor; o seu desenho , detalhe, posição e dimensão são criteriosamente decididos por ele que, como nos outros momentos se cita permanentemente, sem se repetir. E mais um novo retorno às escalas anteriores, para adequação desta nova informação e realidade construtiva ao projecto geral.

A noção de que o projecto tinha acabado, engano meu!, apareceu com a elaboração do caderno de encargos.
Com um outro de apoio e guião e passeando pela sala em concentração, ditava-me os artigos (objecto, implantação, obra de pedreiro, de trolha, etc.) que pontualmente eu corrigia quando o material que ele caracterizava não era o referenciado no projecto ou pormenores. How dare You? E lá interrompíamos para uma nova verificação.

Quando chegou a oportunidade, fez-me descobrir o mundo da obra e da execução dos trabalhos de construção. Era regra cada colaborador seguir a obra do projecto que tinha desenvolvido.
Enquanto me mandava confirmar a implantação das paredes, localização dos vãos, alinhamentos, cotas, passeava pela construção com o seu caderno de esquissos, fazendo apontamentos perspécticos sobre partes da obra, encontros diversos, escadas, remates. Testava mais uma vez os espaços e confirmava de novo e ao vivo a espacialidade desejada. Que corrigia quando queria, negociando com o empreiteiro – isto não está bem e é preciso demolir, a não ser que se proceda a esta pequena alteração que iremos desenhar.

Em 1975 e em pleno PREC, Siza cria um outro escritório exclusivo para o projecto de S.Vitor, no âmbito do programa SAAL, com uma equipe de jovens estudantes de arquitectura da qual eu fazia parte, assim como o Souto de Moura, e que elaboravam trabalhos escolares para aquela zona. Não abdica da sua metodologia de projecto e da construção de um discurso projectual, agora enriquecida por uma activa participação e discussão dos moradores na elaboração dos projectos.

Extinto o SAAL e a brigada de S. Vitor, retornei ao histórico atelier na R. da Alegria, reforçando a equipe existente. Tudo funcionava da mesma maneira, com Siza a decidir e tudo a controlar, com a mesma pressão e etapas, apesar do aumento significativo de projectos de grande dimensão e com programas que não os habituais de habitação, agora de serviços e equipamentos.
O serviço militar obrigatório em 1979 termina a minha colaboração permanente, e inicio o meu próprio percurso e a minha actividade liberal numa pequena sala no mesmo edifício.

Não foi um corte nem um afastamento definitivo; Siza ao longo de todos os últimos tem continuado a desafiar-me para o acompanhar em outros projectos e concursos, aos quais não tenho resistido.

Acompanhá-lo tem sido um prazer e obrigação. Por me ter revelado a mais bela profissão do mundo e a mais antiga (digo eu aos meus alunos), por ter partilhado de forma apaixonante toda a sua arte, saber e conhecimento, o segredo de cozinheiro – saber como fazer quando não se sabe, por me ter transmitido uma noção de ética e responsabilidade profissional, de humildade e rigor.
Por termos criado os dois, uma forte e respeitosa amizade.


Adalberto Dias, Junho de 2013



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