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“A Minha Janela” / fotografias de Nuno Teotónio Pereira
22.05.2015
A Exposição inaugura a 8 de Junho, pelas 19h, na Galeria da Ordem dos Arquitectos e estará patente até ao dia 19 de Junho de 2015.
Galeria da Sede da Ordem dos Arquitetos - Travessa do Carvalho, 25, Lisboa

A Livraria A+A dá início às comemorações do seu 20º aniversário com uma Exposição de Fotografia da autoria do arquitecto Nuno Teotónio Pereira.

“A Minha Janela” título da exposição, apresenta fotografias datadas de 1977, em que o espaço limite é “a janela” escolhida pelo autor. A ambiguidade da imagem realça a sombra que se estende e se confunde com o espaço físico e a intimidade das pessoas.


Exposição apoiada pela Ordem dos Arquitectos e pela Fundação EDP.


ELOGIO DA SOMBRA

Há, nestas fotografias, exactidão, paciência e demora. Há também atenção, escuta visual e captura. Olho-as e encontro nelas aquele movimento do invisível para o visível e aquela aliança hostil do que se vê com o que não se vê a que alguns dão o nome de “sagrado” e outros o de “religioso”: aquilo que religa.
Olha-as e vejo o abstracto no concreto, o escuro no claro, o leve no pesado, o irreal no real, a presença na ausência, o vegetal no mineral. Olho-as uma a uma, olho-as na passagem de cada uma para cada outra, olho-as e vejo a geometria das sombras, a rotação das luzes, a formação das formas, a maturação da matéria, o tom do tempo. Olho-as e pergunto: como é que a janela da casa onde vivemos se liberta assim da sua proximidade a nós, fragmentando-se, desconstruindo-se, regressando ao que era antes de ser e de ter nome?
Uma janela põe-nos rente ao mundo. Abre, liga, dá a ver, faz ver. Aqui, a janela que dá a ver, é a janela que é dada a ver. Com um olhar do fotógrafo, é arrancada da parede, é atirada contra a luz, anoitecida, singularizada. No célebre ensaio “Elogio da Sombra”, o escritor japonês Junichiro Tanizaki diz: “ Afinal, quando os ocidentais falam dos “mistérios do Oriente”, é bem possível que se refiram a essa calma um pouco inquietante que a sombra segrega quando possui essa qualidade. (…) Mas onde está, então, a chave do mistério? Muito bem, vou trair o segredo: vendo bem, é apenas a magia da sombra (…). Porque foi aí que os nossos antepassados se mostraram geniais: souberam conferir ao universo de sombra deliberadamente criada, delimitando um espaço rigorosamente vazio, uma qualidade estética superior à de qualquer fresco ou decoração”. Há, no segredo escuro das imagens, um oriente do ocidente.
Estas fotografias não andam longe da subtileza oriental dos poemas de Camilo Pessanha: “Estranha sombra em movimentos vãos”. E do nocturno pensamento metafísico de Pascoaes: “ Ah, se não fosse a névoa da manhã / E a velhinha janela onde me vou/ Debruçar, para ouvir a voz das coisas/ Eu não era o que sou.// Ah, se não fosse a noite misteriosa/ Que meus olhos de sombras povoou,/ E de vozes sombrias meus ouvidos,/ Eu não era o que sou.” Mas é Sophia de Mello Breyner Andresen, amiga e companheira de Nuno Teotónio Pereira em corajosos combates, que dá uma voz mais alta a estas fotografias : “ Pois há nessa tão exacta / Fidelidade à imanência/ Secretas luas ferozes/ Quebrando sóis de evidência”.
Só um arquitecto olha uma janela com estes olhos rigorosos e só uma janela pode dar a um fotógrafo estas imagens vagarosas. O fotógrafo Nuno Teotónio Pereira e o arquitecto Nuno Teotónio Pereira encontram-se aqui, na lenta aproximação às coisas, na melancolia da matéria, no acender da sombra, no olhar que percorre a solidão, na espera da esperança que toda a arte é, na certeira certeza que toda a técnica tem.
Ao longo da sua vida, Nuno Teotónio Pereira construiu uma dignidade do fazer que é, nele, inseparável de uma dignidade do ser. Como as linhas dos seus projectos e como os materiais dos seus edifícios, resiste aos ventos, às quebras, às recuperações.
Eu olho estas fotografias e escrevo, não “sobre”, mas “sob” elas:

O som das sombra
é a voz escondida que nos diz
Mas ao longe o silêncio dos cães
é uma alucinação tão alta e tão íngreme
como o seu latido
Olhando a janela saímos de nós
para entrarmos numa casa
desenhada a negro no
nevoeiro leve e lento
a que chamamos mundo

José Manuel dos Santos


Nuno Teotónio Pereira

Nasceu em Lisboa, em 1922.
Formou-se em Arquitetura pela Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.
Colaborou com o Professor Arquiteto Carlos Ramos (1940-1944), impulsionador da Arquitetura Moderna em Portugal e ainda com o Arquiteto Miguel Jacobetty na construção do Bairro de Alvalade (1947-1948).
Participou no 1º Congresso Nacional de Arquitetura e no 1º Congresso Internacional dos Arquitetos (1948), Lausanne, Suíça.
Algumas obras da sua autoria: Igreja das Águas, Penamacor, edifício “Franjinhas”, Lisboa, Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa, Estação Intermodal do Cais do Sodré, Lisboa, Plano de Urbanização do Bairro do Restelo, Lisboa.
Distinguido com inúmeros Prémios, entre outros: 2º Prémio Nacional de Arquitetura da Fundação Calouste Gulbenkian (1961); Prémio Valmor (1968,1975,1971,2012); Grã Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (pelo Presidente da República, Doutor Jorge Sampaio, 2004); Prémio BIAU, Colombia, 2010, Medalha Municipal de Mérito, Grau Ouro, Câmara Municipal de Lisboa, 2010.
Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Porto (2003), e pela Universidade de Lisboa (2005).


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