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Fernando Peres Guimarães. (1918-2016)
06.09.2016
A Ordem dos Arquitectos anuncia com pesar o falecimento de um dos seus mais antigos membros, registado sob o n.º 16, presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos no triénio 1963-1965 e membro honorário desde 1994.

A sua evocação retoma um texto publicado no boletim Arquitectos n.º 151, de Agosto 2005, da autoria de António Henriques. O mesmo texto foi republicado no dossiê produzido pela Secção Regional do Sul, cuja versão integral está disponível aqui [consultado a 5 de Setembro 2016].




A VIDA NOS MONUMENTOS
Fez praticamente o percurso na Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN) e quase toda a vida em Lisboa. Mas nasceu no Porto há 87 anos. Fernando Peres Guimarães, membro honorário e o mais antigo inscrito na Ordem dos Arquitectos, diz que veio a Lisboa para ajudar amigos com os desenhos para o trabalho final do curso de arquitectura. Veio para ficar uns dias. Chegou na véspera de um feriado de Santo António e ficou toda a vida.

«Nunca fui muito ambicioso pelo dinheiro. Sinto que ajudei a modernizar os serviços por onde passei. Fiz o que quis, quando quis e saí quando quis». Pediu a aposentação em 1983, três anos depois de ter sido nomeado inspector superior das Obras Públicas. Entre 1963 e 1965 tinha sido presidente do Sindicato dos Arquitectos, uma das organizações que antecedeu a Ordem. Fala com sentido de humor e com desprendimento. Nota-se que ama a liberdade de pensar por si. A Igreja do Bairro da Encarnação (um bairro lisboeta de pequenas moradias projectado pelo arquitecto Paulino Montez em 1940) é um «dos poucos projectos que assinei ao longo da vida». A sua construção estava a ser pacífica até ser visitada pelo ministro das Obras Públicas, Frederico Ulrich, que embirrou com os altares. Achava que eram pequenos demais.

- Nestes altares não se pode dizer missa.
- Pode, pode senhor ministro.
- Já alguma vez ajudou à missa?
- Não. Só fui à missa quatro ou cinco vezes, levado pelos meus pais, quando era pequeno.
É por isso com certeza que projecta altares destes. - Não senhor ministro, é porque sou arquitecto.

Azedo, Ulrich virou costas. «O meu director-geral, um homem leal [Engenheiro Gomes da Silva] perguntou-me se eu tinha a certeza que os altares iam servir. Dei-lhe fotografias de altares idênticos, dos quais ninguém se queixou». Frederico Ulrich mandou dizer que, sempre que fosse visitar a igreja, não queria ver por perto o arquitecto.
No dia da inauguração, Fernando Peres Guimarães foi para o coro e não se cruzaram. «Aproveitei para apreciar a acústica». Mas só então ficou a saber que Ulrich tinha mandado demiti-lo. O que só não aconteceu, porque o director-geral disse que sairia também. «Um gesto raro, em qualquer altura».

O director-geral já tinha mostrado o seu apreço pelo arquitecto, cujo currículo na PIDE assinalava o apoio à candidatura do general Norton de Matos (final dos anos 40). Por isso, ingressou na DGEMN como «arquitecto assalariado» e só viria a integrar a estrutura mais tarde. Pode parecer risível, mas quando Fernando Peres Guimarães chegou à DGEMN e foi liderar a direcção regional de Évora, em 1947, era o único arquitecto para vistoriar todos os monumentos do Alentejo e Algarve. No tempo em que esteve em Évora, valeu-lhe Mário Tavares Chicó, referência da História da Arte e da Museologia. Colaboraram na renovação do Museu de Évora nos anos 40. «Ele foi um espantoso curso de pós-graduação».

Já nos serviços centrais de Lisboa da DGEMN, foi «obrigado» a viajar e em reuniões internacionais chegaram-lhe novas ideias sobre conservação, quando a literatura sobre o assunto era escassa. Empenhou-se na reformulação dos procedimentos, bem como do próprio acervo da instituição, numa altura em que o inventário dos monumentos ainda não contemplava, por exemplo, a descrição das obras de recuperação realizadas. Participou no desenho de muitos monumentos que fazem parte do inventário da DGEMN, coligido em boletins e hoje disponível na Internet.

Um longo percurso tinha sido percorrido desde que acabou o curso na Escola Superior de Belas-Artes em 1945 até aos anos 70. A tempo de viver, após a Revolução, a
discussão (muito participada) das intervenções a realizar. No Valado, Nazaré, a população quis fazer um monumento ao 25 de Abril. A DGEMN organizou o concurso, ao qual chegaram propostas muito idênticas, excepto uma, menos óbvia, «muito bonita». Fernando Peres Guimarães recorda, com agrado, que foi essa a preferida pela população. «O contacto com as pessoas era muito estimulante».

O projecto de renovação do Palácio dos Coruchéus como espaço para artistas jovens, os estudos para os museus de Arte Sacra da Misericórdia e Antoniano, em Lisboa, são seus. Diz de si que «se restaurou, juntamente com os monumentos», comentando o aspecto ágil que mantém. Sobre a arquitectura actual ou sobre exposições e imagens do presente, teve o seguinte comentário: «Como dizia o arquitecto Januário Godinho, já estou chateado de tanta beleza. Mostrem-me uma coisa feia».


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